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São as dificuldades da educação ambiental conjunturais? Receio que não.

por Samyra Crespo – 

No post anterior eu indagava sobre a dificuldade de institucionalização da Educação Ambiental no Paia e sobre a perplexidade que nos causa o desprestígio da mesma, em tempos em que parece mais do que necessária. Afinal, todos os relatórios mundiais afirmam que o ambiente natural degrada a velocidades alarmantes e o risco de colapso de nossa civilização só aumenta. Num cenário assim não deveria a Educação Ambiental ser uma ferramenta essencial?

Ao contrário, permanece marginal na grade das disciplinas universitárias e tanto no Ministério do Meio Ambiente quanto no Ministério da Educação a área foi extinta recentemente.

Pode-se perguntar, então, se essas dificuldades são conjunturais ou próprias e recorrentes de um campo de conhecimento e práticas vasto – que após quase 20 anos da Lei Nacional que o instituiu não consegue dizer a que veio. Ou dar conta de sua missão.Do ponto de vista da institucionalização, a Educação Ambiental é uma jovenzinha rebelde e ambiciosa.

Do ponto de vista histórico, trata-se de uma senhora de cabelos grisalhos como seus líderes atuais. Seu surgimento pode ser buscado nos anos 60 e 70 dentro do chamado escolanovismo, e dos 80 quando o ambientalismo firmou-se como uma nova visão de mundo. Hoje a Educação Ambiental nutre-se dos 50 tons de verde e dos 50 tons de vermelho.

Sem pretender fazer uma genealogia rigorosa, pode-se dizer que a Educação Ambiental no Brasil é um conjunto de tendências que se filia à TEORIA CRÍTICA, e à chamada educação transformadora, emancipadora ou libertadora ou sinônimos. Ver, julgar e agir. Fazer o diagnóstico da realidade, problematizar, propor soluções. Metodologia básica.
No Brasi se tornou um campo eclético que rapidamente assumiu a identidade de socioambientalista – hoje em dia a corrente majoritária – a mais mobilizada e atuante. O pedaço “sócio ” do termo faz a tradicional crítica ao capitalismo e suas injustiças sistêmicas e a “parte ambiental” faz a interpretação dos problemas ambientais existentes e como mitiga-los ou erradica-los.

A mim me parece ser um bom palpite procurar o balde de dificuldades por que passa a Educação Ambiental, não só no ambiente hostil aos grupos e ideologias de esquerda que se acirrou desde à última eleição, mas também em aspectos pouco problematizados, inerentes ao próprio campo.

Um deles está cristalizado na própria Lei de 1999 e que expressa, se não me engano no artigo 10 – o desejo de que a Educação Ambiental permaneça como educação NÃO FORMAL e TRANSVERSAL. E direcionada a todos os públicos.

Localizamos aí dois problemas nada irrelevantes. Primeiro, o MEC não se ocupa da educação não formal. Segundo, sabe-se a transversalidade é uma ideia nobre e bonita, mas dificultosa na prática, gerando ‘n’ conflitos com as outras disciplinas. Mesmo com o avanço dos Parâmetros Curriculares da Educação Ambiental esse problema permanece.
O segundo problema que torna a Educação Ambiental um campo liberal, onde tudo pode, inclusive práticas pouco ortodoxas de expressão de amor à natureza e semelhantes, é a resistência à educação científica.

Na minha opinião, a alfabetização ecológica, expressão criada por Fritjop Capra – passa sem dúvida nenhuma por entendermos coisas básicas como o ciclo do carbono, o ciclo hidrológico, o ciclo de nutrientes e a cadeia alimentar.
Capra, inclusive, criou um instituto com educadores, neurocientistas e psicólogos para estudar os requisitos de uma nova linguagem e de uma nova estética para a Educação Ambiental.

Mudança de mentalidade se faz sim com práticas lúdicas- principalmente na tenra idade – mas sobretudo com conteúdos que facilitem o entendimento dos riscos que a humanidade atravessa com os problemas globais – como o aquecimento, a acidificação dos oceanos e a perda brutal de biodiversidade e solos férteis.

A ambição de abarcar todos os públicos X Informalidade, e a prevalência de conteúdos políticos em detrimento dos conteúdos científicos me parecem um erro que deveria ser repensado.

Em outras palavras, é tempo de olhar para a experiência e perguntar se não estamos enxugando gelo. Gastando sandálias à toa.

Insistindo em teclas que não tocam a música harmônica que um dia desejamos tocar.

A alfabetização ecológica da sociedade permanece como uma tarefa a ser realizada. E urgente.

Este texto faz parte da série que venho escrevendo desde março para o site Envolverde/Carta Capital, sobre o ambientalismo no Brasil.

Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.

 

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