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Por dentro de Marte

InSight vai estudar interior do planeta vermelho (Foto: NASA)

InSight vai estudar interior do planeta vermelho (Foto: NASA)

Mais ou menos a cada dois anos, Terra e Marte se alinham em suas órbitas de modo que a distância entre os dois planetas diminui bastante. Essas ocasiões são chamadas de oposição e durante os períodos de oposição, o planeta fica visível a noite toda e, com essa configuração orbital, fica também mais brilhante. A oposição de Marte se dará no dia 27 de julho e no dia 31 a distância entre os planetas deverá ser de menos de 58 milhões de km, a menor dos últimos 15 anos.

Além de ser um bom período para se observar e fotografar Marte, essa época é ideal para lançar sondas para o planeta vermelho, justamente por causa da redução na distância. Pode notar que a cada dois anos mais ou menos tem notícia de um foguete sendo lançado em direção a Marte. Este ano não será diferente e, se tudo der certo, amanhã pela manhã parte mais uma nave, a InSight da NASA.

A missão da InSight é bem diferente de todas as outras sondas que pousaram em Marte. O foco da missão não é estudar e analisar a superfície marciana ou o que está acima dela, mas sim o contrário: estudar o que está abaixo da dela.

Dessa vez o objetivo é saber mais detalhes da formação de Marte e, principalmente, como foi a evolução do planeta. Os planetas rochosos do Sistema Solar, Mercúrio, Vênus, Terra e Marte, devem ter se formado de modo bem parecido, mas não exatamente igual e, de todos eles, Marte é o mais acessível (fora a Terra é claro). Compreender como Marte é agora e lendo os sinais vitais dele, a ideia é inferir como o planeta evoluiu.

Mas que sinais vitais são esses?

A sonda carrega três instrumentos científicos principais, um sismógrafo, um termômetro requintado e um medidor dos “reflexos” de Marte. Além é claro, dos instrumentos usuais, como câmeras e sensores de dados climáticos.

O sismógrafo, chamado de Experimento Sísmico para Estrutura Interior (SEIS, na sigla em inglês) tem o objetivo de medir os martemotos (os terremotos de Marte). Ele é tão sensível que deve conseguir captar até mesmo as perturbações causadas pelos redemoinhos marcianos! Mas o interesse mesmo são as ondas causadas pelos impactos de meteoritos e os próprios abalos gerados por movimentos internos ou externos, como desabamentos ou deslizamentos.

Assim como na Terra, abalos sísmicos são muito úteis para investigar a estrutura interna do planeta. As ondas sísmicas mudam quando se propagam por diferentes tipos de terrenos e com a análise delas é possível saber os tipos de rochas e sua distribuição pelo interior do planeta. E não só de rocha, se houver bolsões de água líquida ou mesmo plumas de vulcões ativos no subsolo, isso tudo poderá ser detectado desta maneira. Com essa técnica também é possível saber quais as dimensões das estruturas do interior marciano, onde começa e onde termina a crosta, o manto e o núcleo, bem como uma ideia de sua composição.

O tal termômetro requintado é na verdade uma barra de 5 metros de comprimento que irá penetrar no solo marciano. Indo tão fundo assim, as chances das variações de temperatura da superfície influenciar nas medidas interiores são pequenas. Mas o mais interessante é que a cada meio metro a vareta tem um gerador que vai disparar um pulso térmico e vai monitorar como esse pulso vai se dissipar pelo terreno. O objetivo desse experimento é justamente estudar como o calor se propaga em diferentes profundidades e, com isso, em diferentes camadas do solo. Com esses dados, será possível ter uma ideia de como o calor interno do planeta está escapando, ou deve ter escapado no passado.

Quando os planetas rochosos esfriaram, de fora para dentro formando uma crosta, o calor interno ficou aprisionado. Ao longo dos bilhões de anos o calor interno fluiu pelas estruturas e escapou para o espaço, solidificando camadas cada vez mais profundas. Além do calor dos tempos da sua formação, o decaimento radiativo de elementos no solo também gera calor considerável, que segue o mesmo caminho de fluir pelas camadas internas até se dissipar no espaço. Esse mesmo cenário acontece na Terra e a comparação com o que sabemos do nosso planeta, com o que será estudado em Marte deve colocar as coisas em perspectiva.

O terceiro dos instrumentos do rol principal é um experimento de rádio chamado RISE. Ele é composto por duas antenas que visam medir com altíssima precisão a posição da sonda na superfície do planeta. Assim como a Terra, Marte meio que bamboleia no seu movimento de rotação em torno do eixo e qualquer diferença entre a posição medida e a posição esperada considerando somente a rotação será registrada. Essas pequenas variações na rotação denunciam a composição interna do planeta; mais denso, ou menos denso, Marte bamboleia de forma diferente. Com a densidade será possível deduzir se tem muito ferro, ou muita rocha no interior marciano, por exemplo.

A análise da temperatura, pulsação e reflexos de Marte é o que a NASA está chamando de fazer um checkup do planeta.

Além desses aspectos, a missão também testará novas tecnologias. Junto com a InSight seguirão dois cubesats do tamanho de uma valise. Cubesats são satélites pequenos, que usam uma tecnologia miniaturizada e até agora só foram usados em órbita da Terra. Este será o primeiro uso deles em espaço profundo e pode abrir uma gama enorme de usos no futuro.

A missão dos dois, que se chamam MARCO (Cubo Um Marciano, em inglês) é retransmitir para a Terra os dados da sonda durante seu voo através da atmosfera marciana até seu pouso. Os três aparelhos serão lançados juntos, por volta das 8 da manhã deste sábado (horário de Brasília), mas a InSight segue na frente. Os dois MARCOs seguem sozinhos logo atrás.

Esse será o primeiro checkup de um planeta, de acordo com o marketing da NASA, mas independente disso será um grande avanço para compreender a evolução de Marte. A duração nominal da missão da InSight é de um ano marciano, um pouco mais que 2 anos terrestres, mas dada a longevidade das últimas sondas e jipes da NASA, é bem capaz que ela dure muito mais. Os sucessos recentes dos pousos dos jipes marcianos, contam muito a favor do sucesso da missão, mas é sempre bom lembrar que Marte é um alvo difícil e tipo 50% das missões são perdidas. Tomara que essa esteja nos 50% bem-sucedidos.

 

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