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Mudanças do clima deslocarão 13 milhões até o fim do século nos EUA, diz estudo

O ano era 2010 e, no Festival de Cinema que sempre acontece no Rio, um título especial chamou minha atenção. Dirigido por Michael Nash, um cineasta bastante laureado, "Climate Refugees" ("Refugiados do clima", em tradução literal) propunha-se a documentar o fenômeno que, naquela época, ainda era considerado novo, quando uma pessoa é obrigada a se deslocar do lugar onde vive e mora por causa de desastres ambientais induzidos pelas mudanças climáticas.

Assisti ao filme numa pequena sala de transmissão em Santa Teresa. Na época, eu editava o caderno "Razão Social", encarte que atualizava o tema sustentabilidade no jornal "O Globo". Ainda hoje lembro-me bem de algumas passagens do filme, sobretudo porque fiquei "conhecendo", pelo menos em imagens, a ilha de Tuvalu, nação do Pacífico sempre citada pelos meus entrevistados quando o tema era o aumento do nível do mar. Tuvalu, diziam, ia desaparecer até o fim do século. Esta informação sempre me impressionou.

A equipe de Nash não só mostrou Tuvalu por dentro, com suas ruas, escolas, casas e hospitais, como entrevistou uma moradora que lamentava sua triste sorte. Dona de casa, sem ofício, 45 anos, ela estava fora dos requisitos básicos exigidos por Nova Zelândia, país vizinho, que se comprometia a abrir suas fronteiras e aceitar tuvalenses, desde que fossem jovens, já tivessem algum estudo e pudessem, assim, funcionar como mão de obra no país.

"Estou condenada à morte", disse a mulher. No quintal de sua casa, a terra da horta que plantara para ajudar a alimentar sua família já estava salgada, por causa da água do mar que chegava cada vez mais perto.

Foi naquele ano também que o Pentágono, como diz a sinopse do documentário de Mark Nash, começou a considerar as mudanças climáticas como um risco de segurança nacional. Presidida pelo democrata negro Barack Obama, a nação mais rica do mundo queria traçar estratégias para enfrentar a situação, mas certamente não estaria nos planos de Obama construir um muro para impedir refugiados do clima de entrarem em seu país.

Havia uma estimativa em números, claro, como sempre há nesses casos, e eu não me lembro exatamente, mas sei que estava na casa dos milhares. Hoje, porém, uma mega reportagem que acaba de ser publicada no site do jornal "The Guardian", traz um estudo dando conta de que o aumento do nível do mar deslocará 13 milhões de pessoas até o final do século. E este número, apenas nos Estados Unidos, por causa de furacões como o "Florence", que acabou de varrer a costa e atingir as duas Carolinas. Não haverá um estado em toda a nação que não vai ser afetado pelo aumento do nível do mar.

A reportagem, escrita por Oliver Milman, conversa também com uma mulher, Elizabeth Boineau, que viu sua casa inundada pelo terceiro ano consecutivo e já está de malas prontas para um lugar mais alto, deixando para trás uma bela edificação do início do século XX. Boineau mora em Charleston, na Carolina do Sul, que segundo as autoridades é uma parte da história dos Estados Unidos que tende a ser derrubada pelas águas e ventos furiosos que chegam dos mares cada vez mais aquecidos.

"Eu teria que ter uns US$ 500 mil para levantar a casa, demolir o primeiro andar. Vou alugar em lugar mais alto", disse Boineau para a reportagem.

Definitivamente estamos na era das migrações climáticas, conclui o repórter, que teve a ajuda do especialista em adaptação climática Jesse Keenan, da Universidade de Harvard, em suas reflexões.

"É muito difícil imaginar como será o comportamento humano sob circunstâncias tão extremas e historicamente sem nenhum precedente", diz ele.

A questão é que nem todo mundo tem condições de se mudar, como no caso da entrevistada. Este problema vai aumentar a responsabilidade do estado, que precisará cuidar das vítimas depois de cada enchente.

"Tenho dificuldade para saber como será este mundo", disse o demógrafo Mat Hauer, um dos principais autores do estudo apresentado hoje.

Segundo o relatório, dentro de poucas décadas, centenas de milhares de casas nos Estados Unidos serão completamente inundadas.

"Até o final do século, o aumento do nível do mar iria redesenhar o litoral, fazendo desaparecer algumas partes conhecidas, como o Sul da Flórida, pedaços da Carolina do Norte e da Virgínia, grande parte de Boston. O aquecimento da temperatura dos mares irá alimentar furacões monstruosos como os três devastadores – Irma, Maria e Harvey em 2017 – seguido por Florence este ano, que espalhará os sobreviventes de maneira instável e incerta", diz a reportagem.

Em uma proporção ainda pouco relevante, o governo já está se preparando para isso. A pequena comunidade de Isle de Jean Charles, que fica na Louisiana, foi o primeiro lugar que recebeu ajuda federal para se realocar. A população, que cresceu numa ilha que está sendo devorada pelo mar, está de mudança para uma antiga fazenda de cana-de-açúcar a mais de 60 quilômetros dali.

No Alasca, cerca de uma dúzia de cidades costeiras também está tentando se mudar, e pleiteia algum financiamento federal para isso.

Os refugiados do clima dos Estados Unidos saem do estereótipo de pessoas que fogem de suas casas e territórios, da Ásia e da África, por questões políticas, como se tem visto aos montes. Só neste sábado, 237 pessoas que estavam em quatro pequenas embarcações foram resgatadas. No país mais rico do mundo, as cenas são bem diferentes:

"Em vez disso, eles serão americanos abastados dirigindo uma nova vida em seus carros, acompanhados por caminhões que vão carregar uma vida inteira de memórias e posses", conta Orrin Pilkey, professor emérito de geologia costeira da Duke UNiversity, que acabou de lançar um livro "Elevação do nível do mar ao longo das costas das Américas: o Tsunami Lento", que prevê cenas apocalípticas em que milhões de pessoas, em grande parte do sul da Flórida, se tornarão "um fluxo de refugiados que se deslocam para lugares mais altos".

De uma forma ou de outra, as mudanças climáticas causam uma tansformação na civilização. E este movimento já está acontecendo, muito mais cedo do que as previsões do início do século. O que se precisa é enxergar de maneira adulta o problema, com políticas públicas voltadas para ele. É nossa responsabilidade, como cidadãos, cobrar dos dirigentes isso. Aqui no Brasil, em época de eleições, está mais do que na hora de abandonarmos as questões polarizadas e olharmos seriamente para o que cada candidato propõe fazer – se propõe fazer – para enfrentar o maior desafio da humanidade neste século.

 

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